sábado, 27 de fevereiro de 2016

O legítimo comandante Chaves
Sem querer querendo, o humorístico criado pelo mexicano Roberto Bolaños virou o santo milagreiro do SBT



Há anos ele vive  ninguém consegue derrubá-lo do seu posto. Não, não se trata do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, mas do seu xará, o Chaves do seriado infantil mexicano homônimo, cujos  episódios produzidos ainda na década de 70 o SBT reprisa assiduamente desde 1984 – sempre com ótimas médias de audiência, que hoje andam em torno dos 10 pontos. Frise-se: há  anos, não importa se no verão ou no inverno, de dia ou de noite, Chaves obtém esse tipo de resultado. Enfatize-se de novo: sempre com os mesmos episódios. Graças a essa popularidade, o seriado virou o santo milagreiro do SBT. Toda vez que há mudanças na grade de programação – uma rotina na emissora de Silvio Santos –, o personagem pobre e órfão, que mora num barril, é convocado para remendar lacunas e alavancar ibopes claudicantes. Em 2000, quando a global Ana Maria Braga disputava com Chaves a audiência do início da tarde, seu programa tomava surras diárias. No páreo com Malhação, no ano anterior, o mexicano fizera ainda mais estrago: ao livrar vários pontos de vantagem sobre o concorrente, deflagrou uma crise na direção da atração da Globo.

Não é apenas pela audiência que Chaves alarma os seus rivais de emissora. Há que considerar, primeiro, que seu criador e intérprete, o mexicano Roberto Gómez Bolaños, não é funcionário do SBT – portanto não circula pelos corredores reclamando de mudanças no horário, pedindo aumentos de cachê nem provocando dores de cabeça em geral. Chaves também custa relativamente pouco a Silvio Santos: 3,5 milhões de reais ao ano, contra os 18 milhões anuais que ele despende apenas com o salário de Ratinho, sem contar os custos com produção. Chaves é, enfim, o sonho de todo executivo de televisão. Por isso a mexicana Televisa, que produziu e atualmente vende o seriado a mais de oitenta países, aumentou seu preço de 500.000 dólares anuais para o triplo desse valor: todas as emissoras, inclusive a Globo, estavam interessadas na atração.

O mérito por esse sucesso está nos textos de Bolaños. Seu humor tem muito pastelão, mas não abusa da vulgaridade e evita qualquer ligação com modas ou tópicos do noticiário – ou seja, parece sempre fresquinho. "Chaves é uma criança de rua, como as muitas que brincam com o que têm à mão", disse Bolanõs a VEJA EM 2001. Chaves tem, ainda, um ótimo bordão ("foi sem querer querendo") e bons companheiros de aventura, como Kiko e Chiquinha (ambos também adultos vestidos como crianças), Seu Barriga, a Bruxa do 71 e Seu Madruga, que vive de bicos e trambiques. "São personagens típicos dos países subdesenvolvidos. Esse é um dos motivos da popularidade da série", diz o jornalista Luís Joly, co-autor de um livro sobre o personagem. Ao contrário do que se poderia imaginar, o apelo de Chaves é maior ainda entre os adultos que entre as crianças: segundo o instituto Ibope, 58% dos seus espectadores no Brasil têm mais de 18 anos. "Seu humor conquistou várias gerações e se tornou cult. Eu diria até que se deveria mudar a estratégia de venda de Chaves e não dirigi-la apenas à criançada", diz o publicitário e sócio-diretor da F/Nazca Ivan Marques. Para quem não consegue viver sem o programa, já está nas locadoras um DVD com cinco episódios, o primeiro de uma coleção.

Ex-boxeador, Bolaños inicialmente fez fama sob o apelido de Chespirito (ou "Pequeno Shakespeare", na contração "muy mexicana"), por causa do talento e do escasso 1,60 metro. Além de Chaves, criou outras séries, como a estrelada pelo estrambótico super-herói Chapolin (aquele do bordão "não contavam com a minha astúcia") e Chómpiras & Peterete, sobre uma dupla de ladrões regenerados.

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